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26 de janeiro de 2015

The Legend of Zelda: Retrospectiva [Parte 1/5]

A poucas semanas do relançamento de Majora's Mask, o Meus Jogos DS resolveu brindar os seus leitores com uma pequena caminhada pelos meandros de uma das séries mais amadas, de sempre, por inúmeros jogadores por esse mundo fora, com uma retrospectiva da série The Legend of Zelda. Esperamos que gostem e que a Triforce da Coragem esteja convosco.


O Começo de uma Saga
Tinha passado pouco tempo, ainda, desde a Queda da Atari e o consequente Crash dos Videojogos, quando a Nintendo tomou de assalto as casas dos consumidores com a sua primeira máquina de jogos, a saudosa NES. Com um sucesso estrondoso graças a títulos como Super Mario Bros e Duck Hunt, a Nintendo cimentou a sua posição como nova líder de um mercado que estava a renascer das cinzas. No entanto, e para evitar cair no erro da Atari, era necessário que a companhia nipónica apostasse forte na entrega de novos títulos, com novas formas de jogar. A Nintendo não podia limitar-se a repetir a mesma experiência vezes e vezes sem conta. Era necessário inovar e melhorar a cada entrega. Foi com este pensamento que a grande N se virou para o suspeito do costume, Shigeru Miyamoto.
O criador de Mário e Donkey Kong lançou-se para este novo desafio. Tirando inspiração nas suas aventuras de infância, na casa de família em Sonobe, Japão, Miyamoto vai criar um jogo onde a exploração era a palavra chave. Os bosques, os caminhos escondidos, o lago e os riachos, bem como a misteriosa caverna onde, em criança entrara, a medo, só com uma lanterna, serviram de mote para o cenário de um novo jogo de aventura, ao género do ocidental Ultima. Com o apoio de Takashi Tezuka, que era grande fã dos livros de Tolkien, Miyamoto vai criar um Mundo imenso, como nunca antes se tinha visto, repleto de segredos a desvendar e adversários para defrontar.


Seria em 1986 que a Nintendo iria lançar no Japão o seu novo jogo de acção e aventura intitulado de The Legend of Zelda, "The Hyrule Fantasy". O novo título colocava os jogadores na pele de um jovem guerreiro de nome Link. Sim, embora o jogo se chamasse de Zelda, esse não era o nome do protagonista. Zelda (cujo nome veio da mulher do famoso romancista americano, F. Scott Fitzgerald) era o nome da valorosa princesa. Competia a Link salvar um pequeno Reino, da vasta terra de Hyrule, cuja nobre princesa havia sido capturada pelo principe das Trevas, Ganon. É-nos revelado, bem no início da aventura, pela serva da princesa, Impa, que Ganon detém um artefacto que lhe conferia um enorme poder místico, a Triforce of Power. Para evitar que Ganon deitasse as mãos na outra Triforce (Wisdom) a Zelda, antes de ser capturada, partiu-a em oito partes e espalhou-as por oito dungeons. Tendo por base esta informação, compete a Link encontrar a Triforce partida e usá-la para salvar o reino e a princesa.

O jogo era visto de cima e tinha, dispostos na sua parte superior, os dados da personagem, desde os corações que faziam a vez da típica barra de energia, mapa do local onde estávamos, até a representação de todos os items e rupias (a moeda de Hyrule) que Link tinha na sua posse. O mapa-mundo era extremamente vasto e, ao contrário de grande parte dos RPGs da época, permitia ver todos os inimigos que teríamos que defrontar. Antes de jogos como GTA, que estabeleceram o género sandbox como algo popular, já Zelda nos apresentava um mundo aberto no qual podíamos ir para qualquer sítio, a qualquer altura. Por exemplo, nada nos impedia de irmos para a última dungeon, se o quissessemos (embora os inimigos fossem muito mais difíceis de derrotar aí), logo de início.


The Legend of Zelda, todo ele, dava uma liberdade sem limites ao jogador e exigia que pensasse de antemão no próximo passo que iria dar. Os puzzles e as informações dadas pelos NPC's presentes no jogo nem sempre eram claras e caiam no domínio do críptico. A vitória sobre Bosses e inimigos normais exigia a memorização de padrões e reacção rápida. Não era uma aventura linear, como o Super Mario Bros, por exemplo, e muito menos um jogo fácil. O jogo trouxe uma outra novidade para os jogadores da época. Para além de se começar a aventura sem a indispensável espada, era possivel gravar o jogo. A maioria dos títulos desta década obrigavam o jogador a chegar ao fim dos jogos de uma assentada ou, então, atribuía passwords que permitiam retomar de onde se havia ficado, em troca dos items extra que podessemos ter apanhado. Com Zelda não era assim. Miyamoto, produtor do jogo, e Tezuka, criador da história, pertendiam que os jogadores pudessem disfrutar desta grande aventura e a vissem como isso mesmo. Uma grande epopeia. E uma epopeia que podia ser ainda mais grandiosa, pois, uma vez concluída, era desbloqueada a Master Quest que apresentava um desafio ainda maior e dungeons novas.


Da banda sonora, magistralmente executada por Kojo Kondo, destaque para a icónica música de início, que depressa ficou presa na memória colectiva dos jogadores. The Legend of Zelda, de facto, foi um sucesso colossal, com o qual a Nintendo não contava. O seu lançamento, no Japão, foi feito a acompanhar um novo periférico para a Famicon, o Disk System. O facto dos Disk Cards possuirem mais espaço possibilitava a gravação do jogo e melhores efeitos sonoros. Uma particularidade da versão japonesa de Zelda assentava no uso que esta fazia do microfone, incorporado no comando da Famicon. Existia um adversário, os Pols Voice, que apenas eram destruídos pelo uso do mesmo. O jogador tinha que gritar ao microfone para o derrotar. Este "extra" bastante interessante, não passou, todavia, para as versões ocidentais do jogo, devido ao facto da NES não dispor do tal micro da sua contraparte nipónica. Na Europa e EUA, os Pols Voice eram derrotados da mesma forma que os restantes inimigos. Pela espada. The Legend of Zelda seria lançado, em cartucho dourado, para a NES, cerca de um ano e meio do seu lançamento no país de origem. E superou todas as espectativas, tornando-se um sucesso de vendas. Em 1988, o jogo já havia alcançado os dois milhões de unidades vendidas. Um número bastante significativo, para a época.


Com o sucesso do videojogo surgiu o primeiro merchandise e incursões noutras formas de entretenimento. Uma versão alterada do jogo foi lançada para acompanhar uma campanha promocional da Myojo Foods Co Ltd, no Japão, em 1986. Este Zelda, apelidado de No Densetsu: Teiyo Charumera, era uma espécie de Zelda Gaiden, algo muito comum na altura em questão, e está entre as versões mais raras, de se encontrar, do jogo. Em 1988, precisamente, a Ralston Cereals produziu os Nintendo Cereal System, que continha dois tipos de cereais diferentes, representando as duas grandes séries da companhia japonesa. De um lado estava o Super Mario Bros Action Series e do outro, Zelda Aventure Series. Tanto uma como outra, continham os ditos cereais, que assumiam a forma de objectos dos respectivos jogos, bem como doze cartas para se jogar, as Power Cards, e um sticker referente a uma personagem Nintendo. Bonecos, relógios e até mesmo latas do lixo temáticas do Zelda, foram colocadas à venda. Um anúncio publicitário, feito por Bill White, relações públicas da Nintendo América, veio estimular ainda mais a popularidade crescente do título.

The Legend of Zelda foi o primeiro jogo da Nintendo a atingir a marca de 1 milhão de títulos vendidos, tendo alcançado um total de 6,5 milhões na totalidade. Considerado o melhor jogo de acção e aventura de 1988 e um dos melhores da NES, Zelda é detentor de alguns recordes do livro do Guiness e seria relançado inúmeras vezes, sendo que a primeira foi em formato de cartucho cinzento, para a Famicom, em 1994, e a última via a Nintendo eShop, em 2012, para a Nintendo 3DS. The Legend of Zelda é considerado um antecessor dos Action Rpg's, dando origem a numerosos "imitadores" como Crystalis, Soul Blazer ou Allundra.


Um ano antes, já havia saído por terras nipónicas o segundo jogo da série, intitulado Zelda II: The Adventure of Link. Só a 26 de Setembro de 1988 é que as costas europeias seriam brindadas com esta sequela directa do jogo original. No Japão, Zelda II sairia na Famicom Disk System, sendo o seu lançamento em formato cartucho (dourado) nos territórios PAL e nos EUA. A história do jogo coloca-nos nas mãos o jovem Link, agora mais velho (16 anos) e apresenta-nos, como objectivo crucial, a salvação de uma bela adormecida que é nada mais nada menos que a princesa Zelda, embora esta seja outra Zelda (a que deu origem à lenda). Se falharmos em atingir essa meta, os resultados serão desastrosos, pois Ganon regressará para causar o caos e a devastação. Zelda II é um "bicho" diferente do seu antecessor. Este segundo jogo é um sidescroller, com uma maior ênfase no aspecto de RPG.
   

Link continuava a ter um vasto mundo para explorar, mas agora podia visitar cidades repletas de NPCs com os quais se podia interagir muito mais. As pistas que estes lançam para o ar são essenciais para a progressão no jogo, que mesmo assim permanece algo críptico. São introduzidos pontos de experiência, obtidos ao derrotar os adversários que nos surgem pelo caminho. Ao atingir uma determinada pontuação, Link evolui e aumenta as suas barras de energia vital e magia. Em Zelda II, a magia assume um papel muito importante, pois aumenta o arsenal de Link consideravelmente. Novos feitiços podem ser aprendidos sempre que Link visitar um "wise man" em uma das múltiplas cidades. O sistema de combate é muito mais complexo, também. Link, munido de espada e escudo, alterna entre defesa e ataque, podendo saltar ou baixar-se para poder atingir ou escapar de inimigos.


Os gráficos e toda a forma de se ver o jogo está diferente, também. Continuamos a ter um overworld extenso e repleto de inimigos. A diferença reside, todavia, no facto dos monstros, ao tocarem em Link, o transportarem para uma espécie de área de acção. É nesta área sidescroller que se destacam muitas das mudanças acima indicadas e onde as cidades, dungeons e encontros com os inimigos têm lugar. Também o Boss final é diferente, pois não é Ganon, mas sim a contraparte maligna do nosso herói, a.k.a Dark Link. A música é composta por Akito Nakatsuka, mas os produtores continuam os mesmos. Zelda II foi bem recebido pelos jogadores e, embora não tenha vendido tanto como o seu antecessor, é o quinto na tabela de vendas da NES.

O jogo seria relançado em formato portátil, via uma colecção Nes Classic para o GBA e em formato digital, na Virtual Console da Nintendo. Muitos o viriam a comparar a Castlevania II, devido ao gameplay semelhante, no entanto, grande parte das mudanças que Zelda II trouxe consigo seriam afastadas quase por completo e a série regressaria ao seu molde original... mas isso veremos na segunda parte desta retrospectiva, quando Zelda se estrear na SNES, em 1991.