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5 de junho de 2014

Tomodachi Life

Tomodachi Life é a nova aposta da Nintendo no mercado dos jogos sociais, com a estreia no Ocidente de uma série que surgiu no Japão para a Nintendo DS. Um jogo carismático e que promete situações hilariantes, foi um fenómeno de vendas na terra do Sol Nascente e que reflete bem a sua cultura, mas exigiu um esforço adicional de localização para que as suas piadas se adaptassem à realidade Europeia, sem perder toda a estranheza que o caracteriza.

  

O conceito base do jogo resume-se a uma coleção de personagens Mii, dos quais o primeiro é o do próprio jogador. É possível criar um Mii no jogo ou então importar a partir do Editor Mii da consola ou de um Código QR. Após inserir um Mii, o jogador terá de atribuir uma voz e definir um conjunto de caraterísticas que irão determinar a sua personalidade. Cada personagem irá, então, ter direito a um apartamento no único prédio que existe na ilha onde tudo acontece e, a partir daí, começa todo um inesperado enredo. Embora não seja necessário fazê-lo, o jogo recomenda que se criem personagens baseados em amigos, familiares ou celebridades e personagens de que se goste. O motivo é simples: estes personagens interagem entre si, criam amizades, zangam-se e até se apaixonam. O jogador não tem hipótese de sugerir interações entre personagens, mas pode influenciar as decisões que tomam quando lhe pedem uma opinião. Com o passar do tempo, tudo pode acontecer e o jogador estará lá para ver, como se de um bizarro e surpreendente reality show se tratasse.

O papel do jogador, além de influenciar e observar todos os relacionamentos, é principalmente o de cuidar dos personagens. Ao visitar um apartamento, é possível interagir com o seu habitante, desde dar-lhe de comer a oferecer roupas para vestir, tendo em atenção os seus gostos individuais, ou então brincar ou resolver os seus problemas. Os problemas dos Miis podem ir desde questões emocionais a coisas mundanas como ter dificuldade em espirrar, este último que se resolve com um mini-jogo de fazer cócegas no nariz do Mii. Há imensos tipos de comidas, roupas, chapéus e até mesmo apartamentos diferentes que se podem comprar para oferecer aos personagens que, em troca, irão dar dinheiro... para comprar mais coisas ainda. E com tanto artigo para colecionar, cujo registo fica num álbum mesmo que se dispense o item para um personagem ou para venda, o jogo oferece um sistema de partilha em modo wireless local, onde se podem com outros jogadores trocar quaisquer itens que se tenha em stock, ou partilhar personagens Mii, cujas cópias irão levar todos os itens já adquiridos, mas não os relacionamentos.

  

Conforme se vai cuidando de um Mii, o seu grau de felicidade vai subindo, contribuindo para o aumento da Qualidade de Vida na ilha. Por outro lado, alguns dramas que podem acontecer entre personagens irão substituir a sua felicidade por um indicador de tristeza que o jogador terá de ajudar a superar – o fim de uma relação também é complicado para um Mii! A qualquer momento, é possível tirar capturas de ecrã de qualquer das telas da consola, que ficam guardadas no cartão SD. Com ligação à internet, é possível abrir o browser a partir do jogo e partilhar nas redes sociais as imagens do que vai acontecendo. É particularmente útil e divertido para mostrar aos amigos o que se passa com os seus respetivos personagens, ou então outros momentos bizarros que irão deixar muita gente a perguntar de onde vieram tais imagens.

Com a progressão no jogo e o desenvolvimento de relações entre personagens, muitos irão apaixonar-se e alguns acabarão por casar. Estes passam a ter uma vivenda e têm novas situações de casal que podem acontecer, incluindo ter filhos. Os bebés nascem com algumas caraterísticas do pai e da mãe, embora neste caso o jogador tenha a opção de decidir qual será o aspeto e a personalidade do recém-nascido. As crianças requerem cuidados extra, havendo alguns minijogos de baby-sitting associados, mas em poucos dias de jogo ficarão crescidos e prontos para conquistar a independência. É nesta altura que o jogador terá de tomar uma decisão importante: o jovem Mii pode tornar-se residente da ilha no seu próprio apartamento, ou então ser um explorador e partir em direção a outras ilhas através do StreetPass. Os exploradores nunca voltarão a viver onde nasceram, partem de ilha em ilha, consola a consola, levando sempre consigo memórias da terra natal. Ao visitar uma nova ilha, caso sejam bem tratados pelo jogador, irão recompensá-lo com um item exótico que não pode ser obtido de outra forma. E como a possibilidade de voltar ao ponto de partida da viagem pelo StreetPass é bastante reduzida, o personagem vai enviando cartas ao jogador que o criou através do SpotPass, com notícias das ilhas que vai conhecendo.

  

Não é fácil definir um objetivo concreto ao jogar Tomodachi Life. O principal foco deste título está na observação do comportamento dos personagens e das situações bizarras que lhes acontecem. A diversão deste jogo vem de todo este drama, um enredo construído em parte pelas situações que o jogo apresenta e em parte pela imaginação. Daí, passa-se para a partilha nas redes sociais ou o simples facto de se mostrar o jogo a alguém, causando uma variedade de reações na vida real. Assim, a maior parte do jogo ocorre fora do próprio jogo, que se torna uma experiência social única em relação a outros títulos do género. É também diferente de outros jogos “sociais” na medida em que nenhum personagem representa os gostos do jogador e até o seu avatar se distancia do criador. Todos os personagens estão cientes da existência de um humano, parecido com o primeiro habitante da ilha, que cuida deles e os aconselha quando precisam, mas são completamente autónomos nas suas ações e intenções. Quando se cria um personagem, pode indicar-se qual é o laço familiar que tem com o jogador, uma forma de evitar certos relacionamentos amorosos, mas não há forma de indicar relacionamentos entre terceiros, nem é objetivo do jogo simular situações da vida real: os personagens criados a partir de um casal conhecido, podem até nunca se relacionar no jogo, por exemplo.

As situações apresentadas no jogo são um escape à realidade, um mundo alternativo que se torna particularmente divertido quando os seus protagonistas evocam pessoas conhecidas em dramas inesperados. É um título muito adaptado ao estilo de jogo ocasional e não exige uma utilização frequente, deixando sempre uma janela aberta para quem queira ir ao fim de algum tempo ver o que é feito dos seus personagens e divertir-se com as suas peripécias. Ainda assim, requer alguma dedicação numa fase inicial, onde se criam os primeiros personagens ou se tenta perceber o funcionamento do jogo, e só quem investir o tempo suficiente no jogo irá assistir ao nascimento da primeira criança. A sensação de comunidade no jogo é promovida pelo StreetPass que, além de permitir as viagens dos jovens exploradores, também permite ver as estatísticas dos jogadores encontrados e assim saber quem cuida melhor dos seus habitantes.


É um jogo cujo interesse é difícil de explicar, mas que se torna imediato com a experimentação. A forma como promove a comunicação com os amigos da vida real, pelas situações caricatas em que os apresenta, supera qualquer modo multijogador que pudesse ter incluído, deixando também de fora muitos dos vícios de outros jogos sociais contemporâneos. Tem ainda o mérito de chamar a atenção de quem rodeia o jogador pela curiosidade que desperta, até mesmo em pessoas que normalmente não são fãs de videojogos. Tomodachi Life é o jogo social do ano e um dos títulos mais carismáticos da Nintendo 3DS, uma combinação de elementos de géneros diferentes com uma enorme dose de humor japonês, capaz de arrancar gargalhadas e surpreender mesmo ao fim de várias semanas de jogo.