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2 de maio de 2013

The Wind Waker, 10 anos depois

Ilustração por Joel Sousa (joelchan.deviantart.com)
"Alguém não vai dormir esta noite!", disse-me o empregado de uma loja de jogos há precisamente 10 anos, no momento em que me entregou para as mãos a edição especial do Legend of Zelda: The Wind Waker. Era altura da Queima das Fitas, era suposto ir para a festa com os colegas da faculdade, mas nem sequer quis saber... e esta foi apenas a primeira de muitas noites que passei acordado a explorar o vasto oceano, muitas vezes apenas a contemplar a paisagem e observar as estrelas.


Wind Waker foi um daqueles jogos que mudaram o mundo dos videojogos. Se não foi o melhor jogo da GameCube, foi certamente o mais marcante da consola. Em várias revistas e vários sites na internet, falava-se em "obra de arte"... de facto, muitos grandes títulos lançados nos últimos 10 anos devem a este jogo a coragem de ter arriscado fazer algo diferente e utilizar um estilo artístico muito vincado e distante do que era habitual. Para dar alguns exemplos, jogos excelentes como Okami, Ni no Kuni ou até o recente Legend of Zelda: Skyward Sword, não seriam os mesmos sem Wind Waker a desbravar caminho numa altura em que as consolas GameCube, PS2 e Xbox prometiam grandes avanços a nível de realismo gráfico. Ainda hoje, este é considerado um dos jogos mais bonitos de sempre, graças a uma decisão controversa mas que, uma década depois, se revelou a mais acertada.

  

As reacções iniciais às primeiras imagens do jogo foram de choque. Depois da "tech demo" da GameCube no ano 2000, onde a Nintendo mostrava o que era possível fazer em termos de realismo, apresentando um combate entre Link e Ganondorf, ninguém esperava o que seria apresentado um ano depois. Após a apresentação do primeiro trailer de Wind Waker, ainda sem título oficial, a Internet explodiu em comentários de revolta – depois do tom sério de Ocarina of Time e do ainda mais sombrio Majora's Mask, a Nintendo mostra um jogo que parece um desenho animado. Muitos "fãs" prometeram boicotá-lo, mas nem assim a Nintendo voltou atrás. A versão mostrada originalmente ainda teria de ser muito trabalhada até ao resultado final, mas a direcção artística já estava bem definida.

 
Imagens do Legend of Zelda: The Wind Waker na GameCube

Wind Waker foi também o Zelda que mais sofreu por causa dos seus fãs ainda antes do seu próprio lançamento. Por um lado, uma inundação de reclamações e petições online contra o estilo artístico, numa fase inicial. Por outro lado, quanto mais os fãs se ambientavam aos gráficos do jogo, mas insistiam para apressar o seu laçamento: um atraso no desenvolvimento deu origem a um grande descontentamento, especialmente porque a GameCube não tinha um catálogo muito forte de lançamentos regulares. A equipa de desenvolvimento acabou por ceder à pressão e cancelar duas masmorras inicialmente previstas na história. Para não ficar um jogo muito curto em comparação com Ocarina of Time, introduziram uma quest que envolvia encontrar mapas do tesouro que levavam o jogador a outros mapas do tesouro que, por sua vez, indicavam finalmente onde estava o tal tesouro. Após o lançamento no Japão, esta quest foi muito criticada, o que fez com que a Nintendo a alterasse e simplificasse antes do lançamento no Ocidente. Ainda assim, permaneceu o grande ponto franco de um jogo que, fora isso, foi um título brilhante.


2 de Março de 2003. Chegar a casa, colocar o minúsculo disco na GameCube e ligar a consola e televisão... Por mais trailers que tivesse visto, não estava preparado para ver a imagem real do jogo pela primeira vez. Parecia um desenho animado, mas ao mesmo tempo não parecia. Estava mesmo a olhar para algo que nunca tinha visto. Com cores vibrantes e um oceano sem fim, uma história divertida, mas emocionante e com um desfecho surpreendente, Wind Waker quebrou muitos padrões do que se esperava de um Zelda em 2003, mas prestou também homenagem aos jogos anteriores da série. O jogo passa-se num cenário pós-apocalíptico onde o mundo foi coberto por um vasto oceano, centenas de anos depois de Ocarina of Time, sobrando agora pequenas ilhas à superfície, muitas delas desabitadas. Os habitantes das outras ilhas vivem de forma descontraída, não têm a noção do mal que ameaça o mundo e vivem com pequenos problemas do quotidiano, o que dá a todo o jogo um ambiente descontraído e propício à livre exploração do vasto oceano.


Apesar de toda a tranquilidade que este jogo transmite, não se perde a sensação de aventura, nem deixam de existir momentos épicos e intensos. Com bosses impressionantes, tanto em masmorras como no meio do mar, embarcações assombradas e até uma torre colossal que surge do fundo do mar, o jogo estava carregado de momentos marcantes e que deixaram uma boa dose de nostalgia. Passaram 10 anos, mas continuam bem vivas as memórias de lutar contra dezenas de Miniblins ao mesmo tempo (e mandá-los a voar com o martelo), ver o anoitecer ou observar as constelações à noite em alto mar, ou a primeira vez que vi o que estava debaixo do oceano... já para não falar na fantástica batalha final! Também a banda-sonora ficou gravada na memória, especialmente devido a músicas como o tema do oceano ou da Dragon Roost Island, por exemplo.


O anúncio de que Wind Waker terá um remake em HD para a Wii U (aqui) pode ter sido apenas coincidência, pois custa a acreditar que o jogo já tenha completado uma década. Apesar da sua resolução gráfica e alguns aspectos técnicos, este jogo foi um dos que melhor envelheceram daquela geração de consolas, tanto que muitos ainda o consideram um dos mais bonitos de sempre. A simplicidade dos visuais faz com que estes nos pareçam (quase) tão bonitos hoje como na altura em que o jogo saiu, pelo que será muito interessante ver como será a nova versão em alta definição. Os ecrãs já revelados mostram algumas alterações ao estilo artístico, que parece agora mais polido, arredondado e luminoso. Será que o remake vai trazer novos conteúdos? Será que a quest dos mapas do tesouro vai ser melhorada? Temos muitas questões, mas só num futuro Nintendo Direct deveremos ter algumas respostas. Mal posso esperar para visitar novamente aquele fantástico universo!

Imagem do remake de Wind Waker para a Wii U, em desenvolvimento
Muitos só jogarão The Wind Waker pela primeira vez este ano, já na sua versão em HD. Mesmo assim, não consigo resistir a deixar aqui um dos meus momentos favoritos, a sequência em que o Link obtém a Master Sword. Uma boa forma de celebrar o 10º aniversário do jogo. Caso não queiram ter a surpresa estragada, fica o aviso que o próximo vídeo é um spoiler!